História do Cinema
O cinema mundial nos anos 80: Novos olhares e novas reflexões

O cinema mundial nos anos 80: Novos olhares e novas reflexões

O cinema mundial na década de 80 se caracterizou pelo avanço tecnológico e pela expansão do cinema Blockbuster moderno, especialmente nos Estados Unidos. Além da busca por entretenimento, não faltaram filmes preocupados com assuntos mais reflexivos, de conteúdo mais denso. O mundo caminhava para o fim da ‘Guerra Fria’, o socialismo soviético não deu certo, ditaduras caíram, não havia mais a Guerra do Vietnã, a cultura pop cresceu forte e as videolocadoras estavam em alta, reduzindo, de certa maneira, o público nos cinemas.

Em termos temáticos, houve adaptações cinematográficas de fatos históricos, releituras de gêneros e um novo olhar sobre a segunda guerra. O cinema também rediscutiu valores e costumes, religião, fez críticas sociais e políticas, revisitou a máfia e o mundo do boxe, trouxe a contraposição de culturas, se voltou para a juventude sem causa, amedrontou o mundo com o futurismo tecnológico, trouxe de volta a fantasia e retomou a temática do racismo.

A década de 80, por fim, foi uma década de muita produtividade, de resistência à alienação e com temáticas variadas. Tudo isso mostrou que se houver investidores capazes de enxergar para a diversidade cultural e para histórias que tratem de assuntos relevantes, não só que atinjam o público, mas que também façam refletir o nosso mundo, o cinema sempre encontrará caminhos de vigor artístico e de mensagens empoderadas.

Seleção de filmes produzidos nos Estados Unidos

A seguir, serão comentados 09 filmes representativos do cinema produzido nos Estados Unidos nos anos 80. Alguns deles tiveram sucesso de público e outros cativaram a crítica especializada com filmes atemporais, ganhando a denominação de clássico do cinema. Diretores já conhecidos como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e David Lean lançaram filmes com grande apuro técnico e narrativas empolgantes e profundas, enquanto outros diretores começaram a se destacar no cenário americano e mundial. O ator Robert de Niro se sobressaiu nessa década.

Em 1980, o ítalo-americano Martin Scorsese filmou “O Touro Indomável”. O filme conta a vida desregrada de Jake La Motta (Robert De Niro), um filho de imigrantes italianos que se torna pugilista da categoria peso-médio e era conhecido como “o touro do Bronx”. La Mota tinha uma vida particular autodestrutiva e obsessiva, juntando ciúme sexual e instintos animais que destruíram seu relacionamento familiar. O diretor Scorsese fez uma alegoria de como o boxe pode expor o que você faz na vida.

Em 1982, o diretor Ridley Scott, que vinha do sucesso de “Aliens”, realizou uma nova ficção científica, talvez a melhor de todos os tempos, chamada “Blade Runner”. O filme é uma metáfora sobre a morte, visualmente espetacular, e um atordoante retrato de um futuro tecnológico onde um mundo multiétnico se movimenta numa cidade frenética e sufocante, ao mesmo tempo em que ‘replicantes’ (androides idênticos aos humanos) colonizam outros planetas e fogem para a Terra para querer vida mais longa junto ao criador.

Em 1983, o diretor Francis Ford Coppola rodou um filme barato e aparentemente despretensioso, mas que se revelou um poderoso retrato de uma juventude sem destino nos Estados Unidos. Em um lindo preto e branco e com um roteiro que mistura delinquência juvenil e existencialismo, o filme trata de um jovem (Matt Dillon) de uma família desajustada que idolatra o irmão mais velho (Mickey Rourke), um motoqueiro, antigo e lendário líder de uma gangue.  Coppola discorre, em tons filosóficos, sobre rebeldia, violência e o vazio da vida. 

O Touro Indomável, 1980

Cenas de “O Touro Indomável”, 1980

Blade Runner, 1982

Cenas de “Blade Runner”, 1982

O Selvagem da Motocicleta, 1983

Cenas de “O Selvagem da Motocicleta”, 1983

Em 1984, o diretor britânico David Lean realizou um filme grandioso: “Passagem para a Índia”. Ambientado na Índia na década de 1920, durante o domínio britânico, o filme conta a história das interações de personagens distintos: o nativo Dr Aziz (Victor Banerjee), o advogado Fielding (James Fox), e as viajantes Mrs Moore (Peggy Aschcroft) e Adela (Judy Davies).  Quando Adela acusa Aziz de tentativa de estupro nas Cavernas de Marabar, a cidade é dividida entre a elite britânica e a subclasse indiana. O filme explora temas de racismo, imperialismo, religião e impacto cultural.

Em 1986, um novo diretor se destacou: Roland Joffé e seu drama histórico “A Missão”. O filme trata do processo de transformação de um violento mercador de escravos espanhol no século 18, Rodrigo (Robert De Niro), em defensor dos índios. O remorso leva-o a juntar-se aos jesuítas (Jeremy Irons) em suas missões evangelizadoras e administrativas nas florestas brasileiras. O contexto histórico do filme aborda a região dos Sete Povos das Missões, onde índios guaranis se recusaram a deixar suas terras no sul do Brasil e o desfecho foi trágico.

A máfia voltou ao cinema em 1987. O diretor Brian de Palma fez uma nova abordagem sobre a temática no contexto histórico da Lei Seca nos Estados Unidos e no submundo de Chicago nos anos 30. O filme acompanha a luta do agente federal Eliot Ness (Kevin Costner), designado para expor os negócios ilegais do gangster Al Capone (Robert De Niro) com bebidas alcoólicas e levá-lo à justiça. As atuações são memoráveis, com destaque para Sean Connery na figura de um veterano policial.

Passagem para a Índia, 1984

Cenas de “Passagem para a Índia”, 1984

A Missão, 1986

Cenas de “A Missão”, 1986

Os Intocáveis, 1987

Cenas de “Os Intocáveis”, 1987

O diretor Alan Parker se enveredou no universo da supremacia branca americana ao abordar o movimento racista da Ku Klux Klan nos anos 60. O filme em questão é “Mississipi em Chamas”, de 1988. No enredo, acompanhamos dois agentes do FBI (Gene Hackman e Willem Dafoe) que chegam ao Mississippi para investigar o desaparecimento de três ativistas dos direitos civis. Sem a cooperação das autoridades e habitantes locais, eles usam meios nada ortodoxos para encontrar os culpados e acabam por descobrir uma rede de racismo e de assassinato.

Um novo e talentoso diretor negro surgiu e logo se destacou no cenário cinematográfico americano. Seu nome: Spike Lee. Lee realizou o longa “Faça a Coisa Certa” em 1989. O filme conta a história da tensão racial no distrito do Brooklyn (Nova York), que vem à tona num dia quente de verão e culmina em uma tragédia. Vislumbramos o cotidiano de todos seus personagens, as relações de amizade e conflito que constroem em pequenas ações, discussões, encontros e desencontros. O filme foi um sucesso e colocou o cinema negro em primeiro plano.

O diretor australiano Peter Weir conquistou o cinema americano ao lançar em 1989 o belo e comovente “Sociedade dos Poetas Mortos”. No filme, John Keating (Robin Willians) é um professor progressista que tenta encorajar seus alunos a se libertarem das normas rígidas e retrógadas de um colégio, ir contra o status quo e viver a vida sem amarras, com liberdade e alegria. Seu lema: Carpe Diem (aproveite o dia). O filme foi uma sensação ao propagar espíritos livres e a busca da felicidade.

Mississipi em Chamas, 1988

Cenas de “Mississipi em Chamas”, 1988

Faça a Coisa Certa, 1989

Cenas de “Faça a Coisa Certa”, 1989

Sociedade dos Poetas Mortos, 1989

Cenas de “Sociedade dos Poetas Mortos”, 1989

Alguns Diretores que se destacaram no cinema americano nos anos 80. Pela ordem: Ridley Scott, David Lean, Roland Joffé, Brian de Palma, Alan Parker, Spike Lee, Peter Weir

Seleção de filmes produzidos pelo mundo

Na década de 80, em alguns países do mundo, diretores já consagrados realizaram filmes memoráveis, tais como o francês Francois Truffaut e os alemães Reiner Werner Fassbinder e Wim Wenders. Outros, relativamente conhecidos, também se destacaram como o grego Costa Gavras, o polonês Andrzej Wajda e o britânico John Boorman. Mas também, e isso foi ótimo para o cinema, novos diretores se sobressaíram como o britânico Terry Gillian, o francês Jean-Jacques Annaud e o italiano Giuseppe Tornatore.  A seguir, uma safra de 09 filmes significativos.

Em 1980, o diretor francês e expoente da Nouvelle Vague, François Truffaut, realizou o seu filme de maior sucesso de público. Trata-se de “O Último Metrô”. O filme é um drama histórico estrelado por Catherine Deneuve e Gérard Depardieu e se passa na França ocupada pelos nazistas em 1942. Segue a sorte de um pequeno teatro na área de Montmartre, em Paris, que mantém uma resistência, luta pela sua integridade cultural, apesar da censura, antissemitismo e escassez de suprimentos.

Em 1981, um dos maiores cineastas alemães, Reiner Werner Fassbinder, realizou um filme em que aborda o nazismo em sua terra natal: “Lili Marlene”. O filme se passa durante o Terceiro Reich e é sobre uma estrela/cantora alemã, Willie (Hanna Schygulla). Sua canção Lili Marlene, quese tornou um hino dos soldados alemães, diverte os nazistas. Entretanto, ela tem um segredo: um amor proibido com o compositor judeu suíço Robert (Giancarlo Giannini), que busca ativamente ajudar um grupo underground de judeus alemães.

Em 1982, o diretor grego Costa Gavras, notável expoente do cinema político, rodou “Missing” e fez um mergulho crítico e humanista contra a ditadura chilena. O filme é um drama biográfico e baseado no desaparecimento do jornalista americano Charles Horman, após o golpe militar chileno de 1973, apoiado pelos Estados Unidos, que depôs o presidente socialista eleito Salvador Allende. É a jornada angustiante de um pai (Jack Lemmon) e sua nora (Sissy Spacek) em uma busca incessante para encontrar Horman. 

O Último Metrô, 1980

Cenas de “O Último Metro”, 1980

Lili Marlene, 1981

Cenas de “Lili Marlene”, 1981

Missing, 1982

Cenas de “Missing”, 1982

O diretor polonês Andrzej Wajda, reconhecidamente outro grande artista do cinema político, realizou em 1983 o polêmico e discursivo “Danton”, onde faz uma releitura crítica do processo político da revolução francesa, contrapondo seus principais líderes: Danton (Gerard Depardieu) e Robespierre (Wojciech Pszoniak). O filme aborda o chamado “período do terror” e mostra o conflito entre Robespierre, que seguiu como uma liderança de cúpula e se distanciando dos ideais revolucionários, e Danton, que permanecia como uma liderança popular de base.

O diretor alemão Wim Wenders rodou em 1984 “Paris Texas”. O filme é um road movie psicológico que conta a história de um homem, Travis (Harry Dean Stanton), que, depois de muito vagar pelo deserto numa fuga sem memória, reencontra seu irmão (Dean Stockwell) e seu filho pequeno (Hunter Carson). Ao se reconectar com o mundo, Travis embarca em uma viagem pelo sudoeste americano para rastrear a esposa desaparecida (Natassja Kinski). O filme aborda crise familiar, escolhas e redescobertas. Um conto sobre a América, com melancolia e redenção.

O diretor francês Jean-Jacques Annaud rodou em 1986 “O Nome da Rosa”, baseado no livro de Umberto Eco. O filme é um drama de suspense e investigação e se passa na Idade Média, século XIV. O frade franciscano William (Sean Connery) e o noviço Adso (Christian Slater) chegam a um mosteiro beneditino para apaziguar conflitos entre ordens religiosas. Entretanto, assassinatos misteriosos ocorrem e são atribuídos a forças malignas. Em busca da verdade, o franciscano terá de enfrentar o idoso monge e líder do mosteiro (Feodor Chaliapin) e o inquisidor Bernardo (F. Murray Abraham) numa luta que envolve conhecimento versus obscurantismo.

Danton, O Processo da Revolução, 1983

Cenas de “Danton”, 1983

Paris Texas, 1984

Cenas de “Paris Texas”, 1984

O Nome da Rosa, 1986

Cenas de “O Nome da Rosa”, 1986

O diretor britânico John Boorman realizou o drama de guerra “Esperança e Glória” em 1987. Em tom autobiográfico, o filme se passa durante os bombardeios nazistas em Londres e acompanha o garoto Bill (Sebastian Rice-Edwards) e seu olhar inocente sobre a guerra. Tudo parece uma aventura com “fogos de artifício no céu” e brincadeiras nas ruas. Durante este período, Bill aprenderá sobre liberdade, hipocrisia e os erros dos adultos. O filme tem muita sensibilidade em meio ao horror e faz uma ode à infância, sua pureza em meio a destruição e morte.

Um novo talento do cinema italiano, o diretor Giuseppe Tornatore, filmou “Cinema Paradiso” em 1988. Ao tratar do relacionamento divertido entre um garoto travesso, Toto (Salvatore Cascio), e o projecionista rabugento do cinema local, Alfredo (Philippe Noiret), o filme encanta e comove numa aventura que trata de amizade, memórias, sonhos e amor pelo cinema. Tornatore fez uma linda homenagem ao cinema numa linguagem simples, focando num humanismo irresistível de uma pequena cidade da Sicília. Em um longo flashback de lembranças, caímos em lágrimas.

Um dos membros da trupe cômica britânica ‘Monty Python’, o diretor Terry Gillian, realizou em 1989 o fantasioso “As Aventuras do Barão de Munchausen”. Se utilizando da linguagem de fábulas e lendas, o filme conta a história de um Barão mentiroso (John Neville) que, enquanto tenta escapar da morte em uma batalha, relembra suas aventuras em tom de farsa e devaneios. O filme, além de divertido, é visualmente incrível, trabalha com o realismo fantástico, apresenta personagens de contos de fadas e efeitos especiais hilários.

Esperança e Glória, 1987

Cenas de “Esperança e Glória”, 1987

Cinema Paradiso, 1988

Cenas de “Cinema Paradiso”, 1988

As Aventuras do Barão de Munchausen, 1989

Cenas de “As Aventuras do Barão de Munchausen”, 1989

Alguns Diretores que se destacaram no cinema mundial nos anos 80. Pela ordem: François Truffaut, Reiner Werner Fassbinder, Costa Gavras, Andrzej Wajda, Wim Wenders, Jean-Jacques Annaud, John Boorman, Giuseppe Tornatore, Terry Gillian

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