Cinema Brasileiro
A companhia de cinema Vera Cruz e as figuras de Osvaldo Massaini, Anselmo Duarte e Mazzaropi

A companhia de cinema Vera Cruz e as figuras de Osvaldo Massaini, Anselmo Duarte e Mazzaropi

Contexto histórico e criação da Companhia

Após o fim da Segunda Guerra Mundial e da ditadura do Estado Novo, em 1945, São Paulo vivia um momento de efervescência cultural. Revistas de divulgação artística, conferências, seminários e exposições agitavam a vida paulista. No final dos anos 1940, foram inaugurados o Museu de Arte Moderna (MAM) e o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Na mesma época, Franco Zampari, empresário de origem italiana, montou uma companhia teatral de alto nível, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Crescia o interesse pelo cinema e os intelectuais fundavam cineclubes e movimentavam grupos de debates.

Nesse contexto, com apoio de empresários paulistas, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz foi um importante estúdio brasileiro fundado em 1949 e encerrado em 1954. Localizada em São Bernardo do Campo, São Paulo, a companhia foi criada pelo empresário das artes, o italiano Franco Zampari, e pelo industrial Francisco Matarazzo Sobrinho. 

Para administrar a Companhia em bases industriais e com a devida capacidade técnica foi contratado o renomado cineasta Alberto Cavalcanti, que havia adquirido fama e experiência no cinema inglês e que trouxe uma equipe de profissionais da Europa, além de equipamentos avançados. Por alguns anos deu tudo certo, e a companhia produziu vários filmes de sucesso, inclusive no mercado exibidor internacional.

Pela ordem: Franco Zampari e Francisco Matarazzo, fundadores, e Alberto Cavalcanti, produtor geral da Vera Cruz

O auge da Companhia, diretores e filmes importantes

A Companhia Vera Cruz tinha um projeto ambicioso de fazer cinema, teve aporte de capitais, importou recursos humanos e técnicos, construiu grandes cenários e estúdios e contou com bons atores e cineastas. No seu auge, a companhia produziu grandes filmes de sucesso e um total de 22 filmes. Se levarmos em conta seu período de co-produtora, com atuação restrita até o início dos anos 70, a quantidade de filmes aumenta para mais de 40. Além de filmes, citaremos também alguns diretores que mais se sobressaíram na Vera Cruz.

Adolfo Celi

O primeiro filme da Vera Cruz foi “Caiçara”, de 1950, um drama dirigido por Adolfo Celi, que foi diretor de teatro em São Paulo e realizou dois filmes importantes da Companhia. O filme em questão é sobre uma jovem (Eliane Lage) que deixa um orfanato para viver no litoral paulista, cidade de Ilhabela, com um viúvo construtor de barcos (Abílio Pereira de Almeida), mas acaba despertando o interesse de um marinheiro aventureiro, violento e sócio de seu marido (Carlos Vergueiro). O filme tem paisagem exótica, cantigas nativas e vodu (chamado no Brasil de “mandinga”), um ritual afro.

Outro destaque é “Tico Tico no Fubá”, de 1952, um drama musical também dirigido por Adolfo Celi, com o galã Anselmo Duarte e a grande diva Tônia Carrero. O filme é uma biografia romanceada do compositor popular Zequinha de Abreu. Zequinha é um coletor de impostos da Prefeitura Municipal, mas o seu verdadeiro interesse é a música, com várias composições conhecidas dos moradores. Quando um circo chega à cidade, ele é incumbido de cobrar as taxas e conhece o dono e a bela amazona Branca.

Caiçara, 1950, primeiro filme da Companhia Vera Cruz, o Diretor Adolfo Celi, e outro filme dele, Tico Tico no Fubá, 1952

Cenas de Tico Tico no Fubá, 1952

Tom Payne

O A Companhia continuou realizando bons filmes. Citaremos mais alguns. Em 1951, foi lançado o filme “Terra é Sempre Terra”, dirigido por Tom Payne, um argentino que fez sucesso no Brasil e despontou na Vera Cruz. O filme é baseado na peça Paiol Velho, de Abílio Pereira de Almeida (autor do roteiro), com trilha sonora de Guerra Peixe.

A história se passa numa plantação de café e temos dois personagens, o primeiro, um ferrenho capataz Tonico (Abilio Pereira de Almeida), que seu único interesse é conseguir dinheiro, roubando nas colheitas, e o filho da dona da fazenda, jogador compulsivo e mulherengo, que perde muito dinheiro, inclusive para o pagamento de seus peões. Tonico se oferece para comprar-lhe a plantação e, assim, pagar-lhe as dívidas de jogo.

Em 1953, surgiu o filme “Sinhá Moça”, também dirigido por Tom Payne, um drama histórico que trata da questão da escravatura no Brasil no século XIX, com destaque para o escravo Fulgêncio (João da Cunha), a abolicionista Sinhá Moça (Eliane Lage), filha do fazendeiro e dono da Senzala, e o advogado Rodolfo (Anselmo Duarte), que vai defender no tribunal o escravo que liderou uma rebelião, Justino (Henricão), irmão de Fulgêncio. “Sinhá Moça” obteve o prêmio Leão de Bronze no Festival Internacional de Cinema de Veneza, Itália.

Terra é sempre Terra, 1951, o Diretor Tom Payner, e Sinhá Moça, 1953, outro de seus filmes de grande sucesso nos anos 50

Cenas de Sinhá Moça, 1953

Luciano Salce

Outro Diretor importante foi Luciano Salce, um italiano que se sobressaiu muito nesse período. Apresentaremos dois filmes dele. O primeiro foi em 1953, “Uma Pulga na Balança”. O filme é uma comédia com uma história muito engenhosa. Na prisão, Waldemar Wey realiza um golpe. Escolhe por acaso, usando a brincadeira de uma pulga na balança, um anúncio funerário. Depois se apresenta para a família como amigo do falecido e insinua ligações escusas com o finado. Assim, faz chantagem em troca de seu silêncio. O filme contou com atores que seriam consagrados como Paulo Autran, John Herbert e Eva Vilma.

O segundo foi “Floradas na Serra”, de 1954, também dirigido por Luciano Salce. O filme foi a última produção da Vera Cruz e é um drama romântico baseado em romance homônimo da escritora Dinah Silveira de Queiroz, e contou com a atuação da grande musa brasileira do teatro Cacilda Becker que faz o papel de Lucília, uma mulher doente que tem uma paixão por Bruno (Jardel Filho), um jovem aspirante a escritor. É um grande filme brasileiro.

Uma Pulga na Balança, 1953, o Diretor Luciano Salce, e Floradas na Serra, 1954, outro de seus filmes e última produção da Vera Cruz

Cenas de Floradas na Serra, 1954

A queda da Companhia e o filme de maior destaque

Algumas razões levaram a Companhia Vera Cruz a entrar em colapso. São elas: Elevados custos da produção dos filmes, administração da empresa comandada por figuras inexperientes em matéria de mercado cinematográfico, ingressos tabelados, o fato dos exibidores dos filmes ficarem com a maior fatia da bilheteria e, principalmente, devido ao processo de distribuição de filmes que era comandado pela companhia de cinema americana “Columbia Pictures”, que comprava as fitas brasileiras por preços baixos, comparados ao mercado internacional. A Vera Cruz, para poder competir em um mercado desleal, entrou num processo de endividamento irreversível, o que levou ao seu fim.

Lima Barreto

Entretanto, no seu auge, a Vera Cruz alcançou prestígio internacional com o filme “O Cangaceiro”, de 1953, dirigido por Lima Barreto. O filme, que se tornou um clássico do cinema brasileiro, venceu o Festival Internacional de Cinema de Cannes, França, o mais importante do mundo, como o melhor filme de aventura. O filme foi um sucesso de crítica e de público.

A história do filme narra a saga do cangaceiro “Capitão” Galdino (Milton Ribeiro) que aterroriza vilarejos pobres do nordeste, saqueando e matando com freqüência com seu bando armado. Num de seus ataques ele rapta a professora Olívia (Marisa Prado) e pede 20 contos de resgate por ela. Mas ele e o seu braço direito, o valente Teodoro (Alberto Ruschel), ficam atraídos pela bela mulher cativa e a discórdia se instaura no bando.

O Cangaceiro, 1953, vencedor no Festival de Cannes, e o diretor Lima Barreto (à direita) filmando

Cenas do clássico “O Cangaceiro”, 1953

Música “Mulher Rendeira”, um sucesso popular do filme

O Legado da Vera Cruz

A Companhia de cinema Vera Cruz, apesar do pouco tempo de vida produtiva, de 1949 a 1954, deixou um legado de que era possível fazer um cinema de qualidade artística no Brasil, com filmes tecnicamente bem feitos e narrativas bem desenvolvidas. Inspirou muitos produtores e diretores daí para frente. O seu sonho de um cinema forte e independente se concretizaria com a criação da empresa Embrafilme nos anos 60, com produção e distribuição genuinamente brasileiras, algo então inédito e que daria um pouco de fôlego à questão financeira dos filmes.

Foi na Vera Cruz também que despontou Amácio Mazzaropi, um artista da cidade de Taubaté, São Paulo, que conseguiu produzir filmes de grande sucesso popular.

O produtor Osvaldo Massaini e o Diretor Anselmo Duarte, duas figuras importantes do nosso cinema

Oswaldo Massaini foi um dos mais importantes produtores do cinema brasileiro entre as décadas de 1950 e 1970. Fundador da Cinedistri, uma companhia que se empenhou em não só realizar filmes, mas também em distribuí-los para se tornar competitiva, Massaini produziu mais de 60 títulos, dentre eles: Quem Roubou meu Samba, Chico FumaçaLampião, o Rei do CangaçoIndependência ou Morte, Beto Rockfeller, O Caçador de Esmeraldas e O Marginal.

Massaini fez história e, além de sua bem sucedida carreira, produziu dois filmes clássicos do cinema brasileiro, ambos com o cineasta Anselmo Duarte, que já era um grande ator de cinema no período das chanchadas e também em filmes da companhia Vera Cruz. São eles: “Absolutamente Certo”, de 1957, um filme muito visto na época, revisto em mostras de cinema e comentado até hoje, e “O Pagador de Promessas”, o único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962. 

“Absolutamente Certo” é uma comédia romântica onde um jovem operário Zé do Lino (Anselmo Duarte) passa por dificuldades financeiras, mas tem um dom de decorar toda a lista telefônica da cidade. Nisso, participa de um programa de televisão de perguntas e respostas e tem de se safar de uma quadrilha de apostadores ilegais, enquanto enfrenta a competição.

Já “O Pagador de Promessas” é um grande filme baseado numa peça teatral do dramaturgo Dias Gomes. É um drama popular que conta a história de Zé do Burro (Leonardo Villar), um humilde trabalhador que sai de sua cidade carregando a cruz de Cristo para pagar uma promessa à Santa Bárbara numa Igreja em Salvador. Como a promessa foi feita num terreiro de candomblé, Zé do Burro enfrenta a resistência do Padre local (Dionísio Azevedo). Seu caso movimenta a população da cidade com vários tipos pitorescos, sua mulher (Glória Menezes), um cafetão (Geraldo Del Rey), um jornalista (Othon Bastos) e histórias paralelas.

O produtor Osvaldo Massaini e o ator e Diretor Anselmo Duarte com a Palma de Ouro de Cannes, uma parceria de sucesso

Dois filmes de sucesso e premiados da dupla de artistas acima

Cenas de “Absolutamente Certo”, 1957

Cenas de O Pagador de Promessas, 1962

A figura de Mazzaropi e seu sucesso popular

Amácio Mazzaropi era paulista e morador da cidade de Taubaté por muito tempo. Foi ator, humorista e cineasta brasileiro. Foi um fenômeno de sucesso popular e de bilheteria por três décadas. Mazzaropi, desde muito novo, foi atraído pelo circo e depois pelo teatro. Mais tarde, trabalhou no rádio com um programa ao vivo e que depois fez sucesso na TV Tupi.

Já conhecido como um bom artista, principalmente na comédia, Mazzaropi estreou no cinema na Companhia Cinematográfica Vera Cruz no filme “Sai da Frente”, de 1952, onde faz o papel de Isidoro, dono de um caminhão, apelidado de Anastácio. O filme se desenrola no decorrer de um dia, após o protagonista ser contratado para transportar alguns móveis para Santos, e muita confusão acontece. Fez alguns filmes com outras produtoras e depois retornou à televisão, agora na TV Excelsior, num programa de variedades.

Mazzaropi, e seu primeiro filme “Sai da Frente”, 1952

De volta ao cinema, Mazzaropi se tornou muito popular com o personagem Jeca Tatu, baseado em escritos de Monteiro Lobato, um filme que produziu e atuou em 1959. Trata-se de um caipira preguiçoso e simplório da zona rural, desajeitado e muito engraçado. O personagem fez muito sucesso e apareceu em outros filmes de Mazzaropi.

O nome “Jeca” passou a ser sinônimo de “pé-rapado”, ou seja, pessoa humilde, pobre, analfabeto, gente do interior. O personagem continuou existindo em outros filmes de Mazzaropi.

Filme “Jeca Tatu”, 1959, seu personagem mais popular

Cenas de Jeca tatu, 1959

Mazzaropi alcançaria o recorde de bilheteria do cinema nacional com o filme “O Corintiano”, de 1966. Conseguiu ser um realizador do cinema muito próspero, tanto como produtor, como ator e como cineasta. Nos anos 70, construiu em Taubaté, São Paulo, um grande estúdio cinematográfico, uma oficina de cenografia e um hotel para os atores e técnicos. A partir de então, produz e distribui muitos filmes. Ganhou muito dinheiro no cinema e nunca se casou.

“Filme “O Corintiano”, 1966, recordista de bilheteria do cinema nacional

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