História do Cinema
O cinema na década de 50: Hollywood e outros países se diversificam com muito vigor artístico

O cinema na década de 50: Hollywood e outros países se diversificam com muito vigor artístico

O cinema na década de 50 começava a superar o trauma da segunda guerra mundial e apresentou uma grande variedade de estilos e roteiros mais elaborados, de conteúdo mais profundo. Em razão da popularização da televisão, os estúdios cinematográficos buscaram novos atrativos para trazer o público de volta às salas de exibição. Assim, usou-se a renovação técnica com variados métodos como Cinemascope, VistaVision e Cinerama. Grandes produções de filmes épicos e espetaculares tiveram alcance, tanto históricos quanto ficcionais. Filmes bíblicos, romanos e musicais também foram badalados nesse período (Leia mais na Categoria Gêneros do Cinema, Os Musicais de Hollywood e na Categoria O Cinema Blockbuster e as Franquias).

O cinema europeu e asiático ganhava cada vez mais popularidade. Cineastas como Akira Kurosawa, Federico Fellini e Ingmar Bergman estavam deslumbrando o mundo, enquanto ídolos como Brigitte Bardot e Sofia Loren invadiam os Estados Unidos. Na Espanha, o cineasta Luis Bunuel despontava no cenário mundial e Michelangelo Antonioni na Itália buscava o seu caminho pessoal. Em Hollywood, diretores já famosos apuravam seus estilos e novos talentos em atuação dramática e em produção de filmes entravam em ascensão.

Foi uma década de grande criatividade cinematográfica, onde as temáticas filmadas foram se diversificando, saindo um pouco da linha de melodramas para um cinema mais complexo e reflexivo. Foi também na década de 50 que surgiu o machartismo nos Estados unidos, um movimento ideológico anticomunista que afetou a produção cinematográfica em Hollywood ao proceder a uma perseguição de artistas variados. Apesar de delações e afastamentos que se sucederam, a década de 50 apresentou filmes de muita qualidade.

Selecionamos seis filmes de Hollywood e seis filmes de outros países. Se alguns filmes importantes são foram escolhidos neste artigo é porque já foram citados e comentados em outras categorias do Blog Cinema em Foco (acesse o Blog cinemaemfoco.com).

Filmes de Hollywood na década de 50

Na década de 50, Hollywood apresentou filmes mais complexos, fugindo um pouco da veia romântica e de crônicas urbanas. E também melodramas e comédias de costume cederam lugar a roteiros mais elaborados, mais dramáticos e psicológicos, e as interpretações de atores e atrizes se tornaram mais densas.

A década de 50 começa com um excelente filme chamado “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard), de 1950, dirigido por Billy Wilder, em plena forma. É uma sátira trágica sobre o lado negro de Hollywood. Trata da história de um roteirista decadente de cinema, o ator William Holden, que é contratado pela veterana atriz Norma Desmond (Gloria Swanson), que vive ilusões das glórias do passado e que pretende voltar ao cinema. O ator e diretor Erich von Stroheim vive o papel do sinistro mordomo da antiga estrela. A relação entre os atores torna o enredo ainda mais dramático na elaboração deste retrato cru sobre a “indústria dos sonhos de Hollywood”, onde a capital do cinema surge como uma entidade cujo brilho incandescente esconde uma realidade cruel e determinada pelo lucro sob o lema de “o espetáculo tem de continuar”.

Em 1951, Elia Kazan, um cineasta respeitado por sua contribuição ao Actor’s Studios de Nova York, lançou um filme impactante chamado “Um Bonde Chamado Desejo”, também conhecido como “Uma Rua Chamada Pecado”. O filme é uma adaptação de uma famosa peça escrita pelo dramaturgo Tennessee Williams e apresentada pela primeira vez na Broadway em 1947. Narra as experiências de Blanche DuBois (Vivien Leigh), uma ex- beldade sulista que, após enfrentar uma série de perdas pessoais e financeiras, deixa sua origem aristocrática no Mississipi em busca de refúgio com sua irmã Stella (Kim Hunter) e seu cunhado Stanley (Marlon Brando) em um prédio dilapidado da cidade de Nova Orleans. A atuação de Marlon Brando como um homem rude e brutal em permanente estado de agitação e suor foi um assombro e o elevou ao panteão dos grandes atores.

Em 1953, um clássico de romance e drama de guerra do diretor Fred Zinnemann fez muito sucesso: “A Um Passo da Eternidade”, com um elenco estelar. O filme relata histórias de vidas picantes e tortuosas em um campo do exército estadunidense no Havaí, às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor. Centraliza as ações acompanhando os conflitos de três militares da base: O Sargento Warden (Burt Lancaster), amante da esposa (Débora Kerr) de um Capitão, o soldado Prewitt (Montgomery Clift), um exímio boxeador, e o soldado Maggio (Frank Sinatra), que é vítima de um Sargento sádico (Ernest Borgnine). O filme foi muito premiado e possui cenas memoráveis da história do cinema como a da dupla Burt Lancaster e Deborah Kerr deitados na praia, se beijando e sendo molhados pelas ondas do mar.

“Crepúsculo dos Deuses”, 1950, e a cena final do retorno de uma antiga estrela do cinema

Cenas de “Crepúsculo dos Deuses”, 1950

“Um Bonde Chamado Desejo”, 1951, e a cena icônica de Marlon Brando suado

Cenas de “Um Bonde Chamado Desejo”, 1951

“A Um Passo da Eternidade”, 1953, e a famosa cena dos amantes na praia do Hawaí

Cenas de “A Um Passo da Eternidade”, 1953

Pela ordem: Os diretores Billy Wilder, Elia Kazan e Fred Zinnemann

Em 1955, foi produzido o filme “Assim Caminha a Humanidade”, dirigido por George Stevens. O filme é uma pérola cinematográfica e foi o último trabalho do mito James Dean. O filme conta a história de um triângulo de relações tumultuadas entre Leslie (Elizabeth Taylor), Bick (Rock Hudson) e Jett (James Dean) e seus conflitos de interesse na região do Texas. Bick e Leslie se casam e Jett, um peão alcoólatra, acaba se tornando um magnata do petróleo. “Assim Caminha a Humanidade” é um drama de realismo social e uma obra que tenta reconstruir o sonho americano no pós-guerra, abordando também a intolerância racial. James Dean dá um show de interpretação e se despediu do cinema e da vida.

Em 1956, o lendário diretor John Ford rodou uma obra prima do cinema: “Rastros de Ódio”. O enredo é o seguinte: Em 1868, o veterano confederado Ethan Edwards (John Wayne) retorna da Guerra Civil Americana e vai para o rancho de seu irmão na zona rural do Texas. Em sua ausência, os índios Comanches matam seu irmão e sua cunhada e raptam as duas filhas, uma delas ainda menina (Natalie Wood). Com a ajuda do filho adotivo de seu irmão, Martin Pawley, mestiço índio (Jeffrey Hunter), Ethan, que odeia todos os ameríndios, realiza uma perseguição obcecada, quase psicótica, para resgatar suas sobrinhas em uma longa jornada. O filme é um exemplar magnífico do faroeste americano e com uma direção fantástica.

Em 1958, Alfred Hitchcock realizou aquele que é considerado seu melhor filme e um dos maiores da história do cinema: “Um Corpo Que Cai”. O filme é psicanalítico, contando a história de um detetive, Scott (James Stewart), que se aposentou por seu pavor de alturas e que vai investigar uma estranha mulher com tendências suicidas (Kim Novak). Tudo é uma grande armação contra ele que, apaixonado pela mulher que aparentemente se matou, busca desesperadamente compreender o que se passou num processo de degradação emocional até o desfecho de uma dupla identidade e de um assassinato cometido. O filme é um primor de roteiro e de atuações, e foi milimetricamente filmado nas ruas da cidade de São Francisco. O detetive Scott passa por um inferno astral até chegar a sua tão aguardada redenção.

“Assim Caminha a Humanidade”, 1955, e a cena de James Dean ensopado de petróleo

Cenas de “Assim Caminha a Humanidade”, 1955

“Rastros de Ódio”, 1956, e a cena final de Ethan após resgatar sua sobrinha dos índios Comanches

Cenas de “Rastros de Ódio”, 1956

“Um Corpo Que Cai”, 1958, e o pavor de alturas do detetive Scott

Cenas de “Um Corpo Que Cai”, 1958

Pela ordem: os diretores George Stevens, John Ford e Alfred Hitchcock

Filmes na Europa e em outros países na década de 50

Na Europa, Suécia, Polônia e Japão, grandes cineastas se consolidaram no cenário mundial e outros começaram a despontar com um cinema vigoroso, com densidade narrativa, contando dramas históricos, condições sociais, retratos da vida, velhice, luta pela sobrevivência, pós-guerra. Destaques para Luis Bunuel, Henri-Georges Clouzot, Federico Fellini, Akira Kurosawa, Ingmar Bergman e Andrzej Wajda.

Em 1950, o cineasta espanhol Luis Bunuel despontou para o mundo com o filme “Os Esquecidos”. Influenciado pelo neorrealismo italiano, o filme aborda a marginalidade juvenil nos subúrbios favelados da cidade do México e faz uma ácida crítica social às péssimas condições de vida de jovens perdidos, de famílias disfuncionais e um Estado alheio à situação social calamitosa. Narrando a história de garotos de rua que vivem de roubos e crimes e centrado em dois personagens, El Jaibo (Roberto Cobo), que fugiu da prisão, e Pedro (Alfonso Mejía), Bunuel traça um perfil amargo, cruel e desalentador de uma juventude sem perspectiva em meio a um caos social.

Em 1953, o cineasta francês Henri-Georges Clouzot rodou o filme “O Salário do Medo”. O enredo acompanha Mario (Yves Montand), um estrangeiro que passa maus pedaços na América do Sul e deseja voltar à França. Recebe uma proposta de uma empresa petroleira americana para que junto com outros três homens, igualmente estrangeiros, transportem um carregamento de nitroglicerina em dois caminhões. O filme mostra quatro fugitivos em situação desesperadora numa atmosfera de miséria em um vilarejo na América do Sul com o objetivo de melhorar de vida e precisando passar por um trajeto traiçoeiro e com estradas precárias. Os quatro precisam enfrentar uma viagem marcada pelo medo. Não há glória para os personagens, nem durante a jornada e nem no desfecho.

Em 1954, o cineasta italiano Federico Fellini ganhou o mundo e o Oscar de Hollywood com o duro e comovente filme “A Estrada da Vida”. O filme conta a história de Gelsomina (Giulietta Masina), uma jovem humilde e ingênua que é vendida para Zampano (Anthony Quinn), um artista mambembe, rude e brutal. Ao se juntarem a um circo, Gelsomina vira palhaça, seguindo o estilo de Chaplin, e se encanta com um equilibrista chamado Bobo (Richard Basehart). Ciúmes e situações inesperadas acontecem. É um filme melancólico que ficou marcado pela interpretação de Giulietta Masina, esposa de Fellini, sua estatura pequena e seu rosto tristonho, mas esperançoso.

“Os Esquecidos”, 1950, e a turma de delinqüentes juvenis

Cenas de “Os Esquecidos”, 1950

“O Salário do Medo”, 1953, e o caminhão de explosivos

Cenas de “O Salário do Medo”, 1953

“A Estrada da Vida”, 1954, e a trupe de artistas mambembes

Cenas de “a Estrada da Vida”, 1954

Pela ordem: os diretores Luis Bunuel, Henri-Georges Clouzot e Federico Fellini

O cineasta japonês Akira Kurosawa lançou em 1954 um filme que influenciaria uma infinidade de cineastas pelo mundo, com direito a imitações: “Os Sete Samurais”. O enredo se passa no século XVI, em pleno Japão feudal, onde as colheitas de uma aldeia são constantemente saqueadas por bandidos. Um velho samurai, Kambei (Takashi Shimura), é chamado para defendê-la. Para isso, ele contará com a ajuda de outros seis samurais para treinar os moradores a resistir. O filme foi uma grande produção do cinema japonês, se tornou um épico e uma grande referência no cinema ocidental, principalmente para o gênero do faroeste americano, mas também para a geração de George Lucas e seu projeto de “Guerra nas Estrelas”. O diretor Kurosawa contou com seu ator predileto: Toshiro Mifune.

Em 1957, na Suécia, o diretor Ingmar Bergman filma “Morangos Silvestres”, que se tornou um clássico. Bergman realizou um filme de estrada, sobre a velhice e seus fantasmas, com a atuação principal de Victor Sjöström, um cultuado diretor de cinema sueco que ele muito admirava. A história narra a viagem do professor idoso Isak Borg (Victor Sjostrom) de Estocolmo para a cidade de Lund, onde receberá um prêmio acadêmico, na companhia de sua nora Marianne (Ingrid Thulin) e de três jovens. Durante a viagem, ele reflete sobre a vida, a morte, tem sonhos, revisita lugares da infância, memórias da juventude, avalia seu passado, seus erros, defeitos e faz uma avaliação sobre a existência humana. Um filme profundo, emotivo e imperdível.

Em 1958, o diretor polonês Andrzej Wajda, que ficaria mundialmente consagrado com filmes sobre um olhar crítico do mundo comunista, realizou “Cinzas e Diamantes”.  O enredo é o seguinte: No fim da Segunda Guerra Mundial, iniciam-se as brigas políticas internas na Polônia libertada dos nazistas por Stalin. Maciek (Zbigniew Cybulski), um jovem rebelde ligado à frente nacionalista polonesa, recebe a missão de assassinar Szczuka (Waclaw Zastrzezynski), um líder comunista. Perturbado pela transformação repentina de aliados em inimigos, ele decide aproveitar a vida por uma noite, quando se apaixona pela garçonete Krystyna (Ewa Krzyzewska) e pensa em desistir da luta. Nos anos e décadas seguintes, o diretor Wajda continuou com sua estética política que marcou o cinema, filmando a gênese do capitalismo na Polônia, a industrialização, a burocracia, o stalinismo, o sindicato Solidariedade.

“Os Sete Samurais”, 1954, e a luta em defesa dos camponeses

Cenas de “Os Sete Samurais”, 1954

“Morangos Silvestres”, 1957, e os passageiros e caronas na estrada

Cenas de “Morangos Silvestres”, 1957

“Cinzas e Diamantes”, 1958, e a cena do Cristo de cabeça para baixo

Cenas de “Cinzas e Diamantes”, 1958

Pela ordem: os diretores Akira Kurosawa, Ingmar Bergman e Andrzej Wajda

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